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Universo das HQs em destaque no Circuito Cultural Digital de Pernambuco

Universo das HQs em destaque no Circuito Cultural Digital de Pernambuco

Live reunirá Marcello Quintanilha e Waldomiro Vergueiro

 

Desde 1869, quando o ítalo-brasileiro Angelo Agostini lançou a primeira história em quadrinhos brasileira (As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte), as HQs percorreram um longo caminho até o reconhecimento como arte – ocupando hoje salas de aulas e sendo objetos de estudos acadêmicos. Dois importantes nomes do universo das narrativas gráficas, o professor Waldomiro Vergueiro e o quadrinista Marcello Quintanilha, são destaques da programação desta quinta-feira (10) do Circuito Cultural Digital de Pernambuco. Em live, às 11h, eles (um em São Paulo e o outro na Espanha) discutirão o uso das HQs como recurso didático-pedagógico. A mediação do bate-papo será feita pelo jornalista e escritor Roberto Beltrão.

Considerado um dos maiores estudiosos da linguagem dos quadrinhos na América Latina, Waldomiro Vergueiro fundou e coordena o Observatório de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). O espaço, criado em 1990, vem dando grandes contribuições para  debate crítico e fomento à pesquisa científica sobre o gênero. Autor e organizador de mais de uma dezena de livros sobre a arte sequencial,  como Panorama das histórias em quadrinhos no Brasil (Editora Peirópolis) e Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula (Editora Contexto), Waldomiro Vergueiro integra ainda um grupo de pesquisa internacional, com sede na Espanha, que vem desenvolvendo um grande projeto sobre histórias em quadrinhos ibero-americanas.

Carioca radicado há 18 anos em Barcelona (Espanha), autodidata e com 32 anos de estrada, Marcello Quintanilha é um dos grandes nomes do graphic novels. Autor premiado – entre muitos, melhor HQ policial  com Tungstênio, no Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême/2016, França, principal premiação de quadrinhos na Europa e o Jabuti com Hinário Nacional –, Quintanilha se destaca pelo realismo de suas narrativas. Destaca o bom momento para o mercado de quadrinhos, principalmente pelo impulso assegurado pela disseminação das mídias digitais. Em outubro próximo lançará Deserama, seu primeiro romance.

 


 

Acompanhe abaixo a entrevista com o professor Waldomiro Vergueiro:

 

Pergunta –  De que forma as histórias em quadrinhos podem ser adotadas como recursos pedagógicos? 

Waldomiro Vergueiro – Há muitas maneiras de utilizar as histórias em quadrinhos e sua linguagem na educação. Elas podem ser um recurso auxiliar, por exemplo, para a transmissão de conteúdos específicos. Assim, histórias que transcorram em determinados momentos históricos podem ser utilizadas para discutir as características específicas desses períodos, tanto em termos de vestimentas, de costumes, de manifestações artísticas, de vocabulário, de comportamento etc. O mesmo pode ocorrer nas outras disciplinas, como física (a discussão de fenômenos físicos representados pelos quadrinhos), química (elementos químicos que aparecem nas histórias), linguagem (formas de falar dos personagens) e assim por diante. Basicamente, no sentido de aproveitamento de materiais já publicados em sala de aula, pode-se dizer que não existem limites. Tudo depende da criatividade do professor, de sua motivação e de sua capacidade de envolver os alunos. Outra maneira dos quadrinhos participarem no processo educativo é por eles mesmos, sendo objeto de ensino e desenvolvimento de capacidades artísticas ou narrativas dos alunos. A história em quadrinhos é uma linguagem muito possante, que possibilita a expressão de sentimentos os mais variados. Familiarizar os alunos com os pontos fortes e fracos dessa linguagem só vai lhes trazer benefícios, não apenas capacitando-os a entender as mensagens que são veiculadas pelos produtos quadrinísticos, como lhes trazendo o domínio de uma forma de expressão de muita penetração em todas as camadas sociais.

Pergunta –  Quais os países que estão mais integrados ao uso dos quadrinhos em salas de aulas e qual a realidade no Brasil e da América Latina?

Waldomiro Vergueiro – Tem crescido muito, no mundo inteiro, o uso de quadrinhos nas salas de aula. Os professores norte-americanos têm implementado muito o uso de quadrinhos nos últimos anos. O México tem uma tradição de décadas utilizando quadrinhos em processos educativos, especialmente em campanhas de alfabetização e educação popular, produzindo cartilhas quadrinizadas e desenvolvendo projetos específicos que se utilizam bastante da linguagem dos quadrinhos. Vemos esse interesse crescer bastante, também, na Argentina e na Colômbia, países que já tiveram uma forte produção de quadrinhos em décadas passadas. Aqui no Brasil, o número de professores que se interessam por quadrinhos aumenta a cada dia. Conheço muitos projetos e diversas aplicações, desde aquelas mais ambiciosas, que mobilizam escolas inteiras, àquelas mais modestas, que enfocam pontos específicos de uma disciplina. Todas elas buscam aprimorar o ensino e fazê-lo mais eficiente, incorporando aspectos lúdicos ao dia-a-dia escolar.

Pergunta –  Como se deu sua aproximação com o universo das histórias em quadrinhos? Uma relação com raízes na infância?

Waldomiro Vergueiro – Minha aproximação aos quadrinhos vem desde a infância. Sempre fui leitor e colecionador. O interesse por aprofundar meu conhecimento sobre eles levou-me à pesquisa formal, primeiramente no mestrado e depois como professor da Universidade de São Paulo. Entendo que as histórias em quadrinhos têm um papel muito importante na sociedade atual e são responsáveis por grande parte das mensagens que atingem o cidadão do século 21. Entender essa linguagem, compreender suas especificidades é importante não apenas para decodificar melhor suas mensagens como, também, para melhor usufruir dos produtos que veiculam.

Pergunta –  Por muito tempo as histórias em quadrinhos foram vistas com preconceito, tidas como expressão menor (cito como exemplo o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, do Ministério da Educação, que em 1949 apontou os quadrinhos como causador de  preguiça mental). Hoje, as HQs são objetos de estudos nas universidades e o Brasil um celeiro de artistas premiados e leitores cativos. O que mudou e o que ainda persiste ao longo das últimas décadas?

Waldomiro VergueiroFelizmente, grande parte desses preconceitos ficou para trás. Eles se originaram de um tipo de sociedade que, por um lado, via a linguagem dos quadrinhos como exclusivamente voltada para as crianças e, por outro, entendiam que a palavra impressa detinha a exclusividade da transmissão de conhecimentos. A isso se juntava uma visão deturpada da criança como um ser totalmente refém de qualquer tipo de influência nociva, como se elas fossem um recipiente vazio que aceitava qualquer conteúdo, cabendo aos adultos vigiar para que apenas conteúdos benéficos chegassem até elas. Como digo, esse tempo passou, com muitas dessas ideias se revelando equivocadas. Hoje, pode-se dizer que impera um novo entendimento sobre o potencial dos quadrinhos e suas possibilidades de produção de conteúdos. A ideia de que a linguagem quadrinística, por ser dominada pela imagem, ser de fácil compreensão e, por esse motivo, destinada às crianças, já não se sustenta. Sabe-se que a linguagem pode transmitir mensagens de todos os tipos, dirigidas a todas as faixas etárias. Ela não é absolutamente simples. Exige um aprendizado, exige uma familiaridade com seus códigos, exige um domínio de sua forma narrativa. Além disso, no campo da indústria de massa – onde os quadrinhos têm grande penetração -, os produtos quadrinísticos desenvolveram eixos temáticos e universos narrativos que congregam milhões de aficionados, sendo reproduzidos por outras mídias, como o cinema e a televisão. É claro, no entanto, que nem tudo são rosas. Às vezes, uma situação ou outra faz emergir antigos preconceitos, quando pessoas que não acompanharam o desenvolvimento e a evolução do meio retomam antigas visões enviesadas, entendendo que uma ou outra manifestação dos quadrinhos pode ser generalizada para todos os produtos existentes.

Pergunta –  Há 15 anos o senhor desenvolveu o projeto Diretório Geral de Histórias em Quadrinhos no Brasil com o objetivo de  preservar a memória quadrinística nacional. Como é tentar resguardar tal acervo em um país que não preza pela  memória?

Waldomiro VergueiroInfelizmente, devido às limitações da universidade, não consegui seguir em frente com o projeto do Diretório da forma como eu desejava. Por outro lado, outros projetos surgiram que ajudam a cobrir os objetivos que eu tinha originalmente para o Diretório. Um exemplo é o Guia dos Quadrinhos, desenvolvido de forma colaborativa e disponível na internet. Também pesquisadores de várias universidades têm se dedicado ao registro da memória dos quadrinhos em suas regiões. Já temos obras que resgatam parte da produção dos quadrinhos na Paraíba, por exemplo, e agora mesmo participo de um projeto de livro que resgata a produção baiana, também muito significativa no contexto brasileiro.

Pergunta – Gostaria que  falasse um pouco sobre o Laboratório de Histórias em Quadrinhos da USP, fundado pelo senhor, e quais contribuições alcançadas.

Waldomiro Vergueiro  – O Observatório de Histórias em Quadrinhos foi criado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo em 1990. Éramos então três professores que, naquela escola, nos dedicávamos ao estudo dos quadrinhos. Os professores Álvaro de Moya e Antônio Luiz Cagnin, ambos grandes pesquisadores na área, eram os outros dois. Juntos, propusemos à Escola a criação de um espaço laboratorial voltado ao estudo, discussão e aprofundamento das histórias em quadrinhos, sendo um ambiente privilegiado para o desenvolvimento de pesquisas e organização de eventos acadêmicos sobre os quadrinhos. Aos poucos o Observatório foi crescendo, com outros pesquisadores se juntando a nós, criando um grupo regular de professores voltados aos ensino e pesquisa de quadrinhos.  Uma das grandes contribuições do Observatório à pesquisa em quadrinhos no Brasil, a meu ver, foi aprofundar a relação entre quadrinhos e educação – o que deu origem a dois livros específicos e vários artigos por parte dos pesquisadores do Observatório -, divulgando e ampliando essa preocupação para outros grupos de pesquisa e estudiosos do país. O Observatório também tem atuado muito no incentivo à produção de livros sobre quadrinhos, tendo constituído um selo específico para isso, no qual estão envolvidas várias editoras.

Pergunta –  No final de 2019, a Cepe Editora lançou seu selo HQ. Do ponto de vista editorial ainda há um desequilíbrio de interesse entre o Nordeste e as demais regiões do país?

Waldomiro VergueiroSem dúvida, existe esse desequilíbrio. As grandes editoras apostam mais em obras de vendagem mais garantida. É preciso um trabalho de divulgação da produção das diversas regiões, especialmente daquelas fora do eixo Rio-São Paulo, de forma a não apenas fazer justiça às produções autóctones, mas, também, incentivar novos talentos. Tenho, nos últimos tempos, me preocupado em incentivar o registro dessas produções e um de meus sonhos é conseguirmos produzir livros que mostrem o desenvolvimento dos quadrinhos nos diversos estados.

Assessoria de Imprensa da Cepe.

 

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