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Circuito Cultural de Pernambuco é aberto em live com historiadora Mary Del Priore

Circuito Cultural de Pernambuco é aberto em live com historiadora Mary Del Priore

Começa nesta quarta-feira (9), em live com a historiadora social e escritora carioca Mary Del Priore, o Circuito Cultural de Pernambuco. O evento, pela primeira vez no modelo digital, é uma iniciativa da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) com curadoria da Fundação Gilberto Freyre e se estenderá pelos meses de outubro, novembro e dezembro, com atividades mensais. Até o próximo domingo (13), quando termina a primeira etapa do Circuito, serão realizadas diversas ações por dia entre lives, debates, contação de histórias, oficinas educativas, lançamentos de livros, apresentações artísticas e exibição de filmes. O poeta João Cabral de Melo Neto, que teria completado 100 anos de nascimento em 9 de janeiro de 2020, é o homenageado do evento.

“Mudamos o formato, mas a reflexão sobre o livro e a leitura permanecem em Pernambuco”, afirma o jornalista e presidente da Cepe, Ricardo Leitão. Mais de 20 editoras, livrarias e instituições estão inseridas na programação com atrações próprias. A abertura oficial do Circuito Cultural será às 16h30 e a conversa com Mary Del Priore – História Baseada em Fatos Reais – se inicia às 17h, com mediação do jornalista Fellipe Torres. Autora de 53 livros e detentora de mais de 20 prêmios nacionais (três Jabutis e dois Casa Grande & Senzala) e internacionais, ela vai mostrar como correspondências pessoais revelam as nossas origens.

“Documentos mais íntimos dizem muito sobre a sociedade, a partir desse conteúdo é possível ir tecendo, construindo e contando a história de uma maneira diferente, é como se a pessoa estivesse ouvindo a voz e sentindo as angústias, as alegrias e os pesares de quem escreveu as cartas”, declara a historiadora. Acompanhe a programação, gratuita e para todas as idades, pelo portal do Circuito (www.circuitoculturalpernambuco.com.br) e veja a entrevista concedida pela escritora.


Pergunta – Bilhetes amorosos, cartas trocadas entre marido e mulher e correspondências entre pais e filhos são fontes para seus estudos. Como esses documentos, tão íntimos e pessoais, ajudam a contar a nossa história? O que eles nos revelam sobre o povo brasileiro?

Mary Del PrioreDas Cartas jesuíticas aos seus correspondentes em Roma, às cartinhas de D. Pedro I aos filhos ou à correspondência amorosa entre a condessa de Barral e o Imperador D. Pedro II é todo um mundo que se descortina. Afetos, questões políticas, tensões familiares, problemas do dia a dia, a correspondência se torna uma grande tela de cinema onde os fatos históricos desfilam entremeados às questões do coração ou às emoções. É uma outra forma de se conhecer a história e a vida de quem escreve. Todo o povo escrevia? Não. Mas é bom saber que até escravos trocavam correspondência, como vem sendo apurado por historiadores. E suas cartas ou são endereçadas às autoridades em busca de Direitos e de liberdade, ou aos familiares revelando as mesmas preocupações de pessoas livres.

Pergunta – Com base nessas correspondências, que recuperam o cotidiano da sociedade e desnudam histórias pouco investigadas, que avaliação a senhora faz do brasileiro? É um povo conservador?

Mary Del PrioreAs cartas revelam grande preocupação com entes queridos ou membros da família. Doenças, mortes, problemas financeiros são os temas mais visitados. Nas cartas de políticos fica visível os golpes e contragolpes da história. José Bonifácio, por exemplo, escreveu horrores sobre D. Pedro I quando sentiu que foi abandonado e traído. Não dá para julgar o “povo brasileiro” que é complexo e muito diferente de Norte a Sul. Mas dá para ver que a emoção nunca esteve ausente da tinta e do papel.

Pergunta – Onde a senhora encontra esses documentos, verdadeiras preciosidades sobre o comportamento social dos habitantes do País? Em arquivos públicos? Em baús de família?

Mary Del PrioreNossos arquivos públicos são riquíssimos. Os dos museus, como o Imperial, também. A Fundação Getúlio Vargas tem um Arquivo sobre nossos políticos impecável assim como a Fundação Ruy Barbosa. O IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) é outra mina de ouro. E existem arquivos privados e colecionadores que são muito generosos. Quando sabem que alguém está fazendo um livro sobre o assunto, entram em contato e oferecem seus préstimos. Eu mesma recebi muita ajuda quando escrevi sobre personagens do Império. Boa vontade não falta. O que falta são verbas da Federação que mantenha esses tesouros vivos, higienizados e ao alcance dos pesquisadores.

Pergunta – O Brasil ultrapassou a casa dos 120 mil mortos pela Covid-19 e parece que esse número já não impacta (ou sensibiliza) o cidadão comum, alheio às recomendações de distanciamento social. No livro O mundo pós-pandemia: Reflexões sobre uma nova vida (Editora Nova Fronteira), que conta com textos de 50 personalidades convidadas, a senhora aborda os ritos de luto. Na perspectiva da história, o que podemos aprender com tais ritos e o que a atual pandemia nos ensinará?

Mary Del PrioreO capítulo em questão trata de um tema importante: nossos antepassados temiam a morte? Resposta: não! Temiam morrer sem estar preparados. Acompanhados por padres ou tabeliães deixavam tudo certinho para seus descendentes, pediam perdão pelos pecados cometidos e pagavam dívidas. Vizinhos e amigos enchiam o quarto. O moribundo fechava os olhos cercado de calor humano. Depois do transe, havia sempre uma comezaina. Bebia-se muito no percurso do caixão até o cemitério e não poucas vezes o enterro acabava em frouxo de risos e gritos de saudades. Existia uma intimidade com o “bem-morrer”. Hoje, isolados na UTI, os moribundos não veem mais seus parentes ou os familiares seus mortos que desaparecem rapidamente nas covas. Não há tempo para despedidas. Isso implica numa mudança de mentalidade que terá consequências mais a frente.

Pergunta – Conhecer o passado é essencial para para se compreender o presente. Como interpretar um país, como o Brasil, que trata com tamanho desinteresse a história e a memória? O que vem sendo ensinado em salas de aulas reflete o país?

Mary Del PrioreÉ muito triste constatar o desinteresse dos brasileiros por seu passado. Nada se conserva ou cuida. O incêndio do Museu Nacional já foi esquecido. Grandes protagonistas da história passam desapercebidos e nem são identificados quando são nome de ruas. Temos uma elite que cultiva modismos estrangeiros sem valorizar suas raízes, e professores que dão aula de história, sem gostar do que fazem. Nossos líderes são semianalfabetos e se gabam do mau uso da língua portuguesa. Ora, a história faz parte do sentimento de pertença e cidadania. Sem ela, será cada vez mais difícil ter uma população comprometida com o país. Jamais saberemos quem somos, se não soubermos quem fomos. Para isso temos que mudar a elite, varrer os políticos e trocar professores desinteressados por historiadores apaixonados pelo que fazem.

Pergunta – No Brasil, discurso revisionista (e negacionista) cresce como uma onda em pleno século 21 tentando legitimar projetos ideológicos. Gostaria que a senhora falasse um pouco sobre esse momento de manipulação histórica…

Mary Del PrioreO negacionismo, palavra que nasceu com a negação dos terríveis campos de extermínio nazistas, reapareceu no debate sobre o número de mortos e a cloroquina. Os gabinetes de ódio ajudaram a disseminar fake-news e os brasileiros que não têm o hábito de se informar, se viram diante de mentiras do governo. Penso, contudo, que muitos segmentos reagiram: blogs, imprensa, artistas, médicos, escritores, ninguém perdeu tempo em desmentir as falsas informações. O negacionismo só fez aparecer a terrível desigualdade, não só econômica, mas, sobretudo, intelectual em que vivemos. A vontade de muitos de acreditar ingenuamente em milagres calou a razão e a ciência.

Pergunta – O Governo Bolsonaro encaminhou ao Congresso Nacional um projeto de reforma tributária que prevê a taxação de 12% sobre os livros. Como a senhora analisa tal iniciativa e o que está em jogo?

Mary Del PriorePenso que se esse governo quisesse fazer algo pelo país, focaria exclusivamente em educação. Somente com educação se sai da pobreza. O gosto pelo livro e a leitura é algo que deve ser incentivado pela multiplicação de bibliotecas, projetos comunitários que incentivem a ler e sobretudo, pais e professores que transmitam o prazer de ler aos filhos e alunos. Quantas casas têm televisões imensas e nem um livro?!  Moro numa área semirrural e, no ponto de ônibus do bairro, fiz uma pequena biblioteca. Um sucesso! Vejo pessoas lendo à noite, à luz do celular. Nossos patrícios querem ler. E convido a todos a assinar a lista que está na internet contra essa taxação. Vamos nos mexer!

Pergunta – Qual o seu próximo livro? Que assunto vai sair do baú para as livrarias?

Mary Del PrioreO próximo livro que sai pela editora Planeta, em outubro, chama-se “De sobreviventes à guerreiras – uma breve história das mulheres no Brasil”. Nele, evito o vitimismo e o “coitadismo”, narro a história de mulheres que driblaram a violência, as dificuldades da vida e venceram e ainda discuto o fim do patriarcado. Gostei muito de escrever e espero que os leitores gostem o mesmo tanto, de ler.

Assessoria de Imprensa da Cepe

 

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